Dois ensaios de Mircea Cartarescu

 

Os ensaios abaixo foram traduzidos do espanhol por mim e fazem parte do livro "El ojo castaño de nuestro amor" com tradução do romeno de Marian Ochoa de Eribe - edição argentina de 2022, da editora Impedimenta; título original: Ochiul caprui al dragostei noastre (perdão pela falta dos sinais diacríticos do romeno).

Mircea Cartarescu nasceu em Bucareste em 1956. É poeta, narrador e ensaísta. Doutor em Literatura Romena pela Faculdade de Letras da Universidade de Bucareste, é considerado pela crítica literária o mais importante escritor romeno da atualidade. É frequentemente especulado como um forte candidato ao Prêmio Nobel de Literatura, sendo considerado a "eterna aposta" da Romênia para o galardão. Nos últimos anos, recebeu prestigiados prêmios literários europeus, como o Estatal Austríaco (2015), o Thomas Mann (2018), e o Formentor de Letras (2018). No Brasil, os seus romances "Nostalgiae "Solenoide" foram publicados pela Editora Mundaréu, com tradução de Fernando Klabin.


I - O gato morto da poesia de hoje


Ao final da Segunda Guerra Mundial, um ex-combatente, Seymour Glass (conta J.D. Salinger) é convidado a jantar com a muito burguesa família de sua prometida, Muriel. Os pais desta, preocupados com as esquisitices do jovem, fazem-no a clássica pergunta sobre a carreira que ele pretendia seguir depois da guerra. Para a consternação desses, Seymour responde que não desejava ser outra coisa senão um gato morto. Naturalmente, eles tomam sua resposta como uma prova a mais de sua loucura, sem saber que o maravilhoso personagem (um novo príncipe Mishkin, em definitivo), um poeta por excelência, se referia a uma antiga parábola zen. "Qual é o objeto mais valioso do mundo?", perguntam a um mestre zen. "Um gato morto - responde ele -, pois ninguém pode atribuir-lhe um preço.

A poesia é o gato morto do mundo consumista, hedonista e midiático em que vivemos. Não se pode imaginar uma presença mais ausente, uma grandeza mais humilde, um terror mais doce. Ninguém parece poder precificá-la e, no entanto, não há nada mais valioso. Somente a encontramos na livrarias se temos a paciência de chegar até às últimas fileiras das estantes. Os poetas já não têm estátuas, como no século XIX, nem reputação, como no século XX. Obcecadas pelas vendas e pela rentabilidade, as editoras fogem da poesia como o diabo foge da cruz. Atualmente, não podemos imaginar um destino mais dramático que o do poeta que decida consagrar toda sua vida à arte. Os poetas antigos arruinavam suas vidas (em muitas ocasiões também a dos outros) pela loucura de um verso perfeito, mas confiavam ao menos no reconhecimento das gerações seguintes. Eles podiam crer sinceramente que a beleza seria a salvação do mundo - como disse Dostoievski - mas hoje já não sabemos o que é a beleza, nem tampouco o mundo, e não entendemos o que significa "salvar". O que se vai salvar se vivemos no imanente e no aleatório? Sem a perspectiva de conseguir algo através da arte e de sua profissão, sem a esperança na glória e na posteridade, o poeta está condenado à vida associal e fantasiosa do consumidor de haxixe. "O poeta, como o soldado, não tem vida própria, / sua vida própria é pó e pólvora", escrevia Nichita Stanescu. Hoje, quando a civilização do livro agoniza e quando penetramos com voluptuosidade nos desfiladeiros do mundo virtual, a poesia é menos visível ainda. A modernidade implicava uma civilização centrada na cultura, uma cultura centrada na arte, uma arte centrada na literatura e uma literatura centrada na poesia. A poesia na época de Valéry, Ungaretti e T.S. Eliot era a medula da medula do nosso mundo. Agora, a descentralização pós-moderna tem produzido uma civilização sem cultura, uma cultura sem arte, uma arte sem literatura e uma literatura sem poesia. De certo modo, os polos da vida humana têm sido invertidos de forma brusca e as primeiras vítimas têm sido os poetas.

E, no entanto, humilhada e dissolvida no tecido social, quase desaparecida como profissão e arte, a poesia segue sendo onipresente e ubíqua como o ar que nos rodeia. Pois, antes de ser uma fórmula e uma técnica literária, a poesia é um modo de vida e uma forma de ver o mundo. Expulsos novamente da República, os poetas têm aprendido a lutar com as mesmas armas da civilização que os condena. Têm se refugiado nas redes de blogs literários, onde publicam livremente seus textos, escapando da servidão de todas as formas de comercialização, encontrado abrigo nas letras de músicas (do rock e do rap) e nas legendas dos vídeos musicais e comerciais, nas competições dos slams de poesia interpretada. Compreendem  a alegria do anonimato, a alegria de produzir textos para um grupo de amigos, aprendem a proteger-se da brutalidade do mundo circundante e da vulgaridade do êxito. Nada é mais discreto, mais admirável e mais triste, em certo sentido, que o poeta de hoje, o último artesão em um mundo de cópias sem original (como disse Baudrillard), o último ingênuo num mundo de arrivistas.

Os poetas romenos são também, hoje em dia, os maravilhosos gatos mortos da cultura romena. A duras penas conseguem publicar, são relegados nos prêmios, nas bolsas de estudo e no reconhecimento, são considerados por muita gente escritores de segunda classe. Poucos, muito poucos, são conhecidos pelo grande público. Os últimos que conseguiram uma certa notoriedade foram os dos anos sessenta, os clássicos da modernidade. Nenhum poeta disfruta agora da fama que alcançaram então (e que tem crescido com o tempo) Nichita Stanescu ou Marin Sorescu, Gabriela Melinescu ou Ana Blandiana. Somente alguns estudantes de Filologia conhecem a obra dos poetas romenos atuais. E, no entanto, a poesia tem sido sempre a rainha da literatura romena, uma literatura cujo gênio absoluto é Mihai Eminescu, um poeta. No período do entreguerras brilharam os poetas modernistas, entre os quais se destaca sem dúvida o grande escritor Tudor Arghezi. A vanguarda e o surrealismo romeno produziram autores de reconhecimento internacional cujo nome deveria soar familiar a qualquer cidadão europeu letrado: Tristan Tzara, Isidore Isou, Benjamin Fondane, Gherasim Luca, Gellu Naum. Depois da II Guerra, junto aos deslumbrantes representantes da geração dos anos sessenta mencionados, dois autores isolados, encerrados hermeticamente num mundo individual de intensa originalidade, alcançaram um prestígio duradouro: Leonid Dimov, mago das palavras, criador de paisagens nostálgicas atravessadas pela luz turva do sonho e Mircea Ivanescu, provavelmente o melhor poeta romeno vivo¹, mais discreto que a própria discrição, mais transparente que o ar e igualmente necessário. Este último reorientou, na década de setenta, toda a poesia romena, desconectando-a de sua antiga fonte francesa e lançando-a do outro lado do oceano, em direção a muito mais direta, mais prosaica e mais dinâmica poesia americana. Os anos setenta conheceram um ecletismo tardo-modernista no qual tiveram espaço as tendências mais contraditórias: a delicadeza dos poetas descendentes de Blaga (esse Rilke transilvano dos anos vinte e trinta), como Adrian Popescu, e o vigor ético de Mircea Dinescu. Os poetas mais importantes dos anos oitenta são, no entanto, dois encantadores e manipuladores de graciosas inutilidades, Serban Foarta e Emil Brumaru. 

A última geração nascida no período comunista, em um decênio trágico marcado pela ditadura e pelas privações, foi a dos anos oitenta, conhecida já naquele período com o nome de "geração do jeans". O ano de 1980 foi, de fato, o equivalente na cultura romena ao ano de 1968 da Europa Ocidental: ano de ruptura, de revolta contra o sistema, de insurreição contra a geração anterior. Isto se deixou sentir melhor na poesia. Tudo o que estava vivo na poesia romena, uma vez aceita sua marginalidade e sua ruptura com o sistema comunista como uma grande oportunidade, se tornou underground. Nessa época teve lugar a segunda aproximação com a poesia americana - capitaneada por Mircea Ivanescu - , graças ao descobrimento da Geração Beat e da energia de poetas como Allen Ginsberg ou Lawrence Ferlinghetti. Os muito jovens poetas de então (que agora têm uns cinquenta anos e já começaram a ser considerados os últimos clássicos) assumiram a forma violenta, narrativa, prosaica e estridentemente metafórica dos beatnicks americanos e empreenderam a famosa "descida da poesia às ruas", tão necessária para a poesia romena. A poesia viva se materializou em todo aquele período em grupos literários estudantis como o "Cenáculo das segundas-feiras de Bucareste", que seria brutalmente liquidado pela censura após quinze anos de funcionamento clandestino. Entre os poetas oitocentistas, como são conhecidos até hoje em dia, a que se destacar Florin Iaru, Traian T. Cosovei, Mariana Marin e Ion Muresan. Os dois primeiros são lúdicos e irônicos, os últimos, ao contrário, são graves e proféticos, mas compartilham um inquebrantável instinto de liberdade. 

A partir da revolução anticomunista de dezembro de 1989, a poesia romena submergiu, catastroficamente, no sistema de valores dos romenos. O capitalismo selvagem dos anos noventa arruinou a população, as editoras e as revistas culturais entraram em colapso, a competição por traduções de literatura comercial se tornou muito intensa. Os poetas que surgiram nesse período miserável lançaram seus livros, simplesmente, em um oceano de indiferença. Eles são, em certo sentido, a segunda geração perdida da poesia romena depois da de 1945, a de Constantin Tonegaru e Geo Dumitrescu. Grupos e grupúsculos de poetas se desenvolveram - como uma prolongação do oitocentismo ou, em muitas ocasiões, confrontando-o - sem que tal embate chegasse ao público. Para fazerem-se ouvir muitos poetas apelaram à violência e à pornografia, adotando valores e mensagens "punk". Daniel Banulescu ou Mihai Galateanu se encontram entre os poetas bucarestinos desta tendência, vinculados à revista ArtPanorama. O grande poeta deste grupo é, no entanto, Cristian Popescu, um fantasiador de essência psicanalítica e surrealista, tragicamente desaparecido aos trinta e sete anos. Em Brasov nasceu outro grupo, integrado por uns poetas culturalistas, refinados, anti-intelectuais por excesso de intelectualidade. Simona Popescu é a poeta mais destacável desse grupo. Finalmente, um solitário, Ioan E. Pop, é talvez o mais bem avaliado na poesia dos anos noventa: um poeta grave, meditativo, preocupado com questões existenciais e religiosas.

A mudança de milênio se mostrou algo mais favorável à poesia que, no entanto, ainda não recuperou o seu status de estrela da literatura romena. Jovens poetas dos grupos estudantis bucarestinos tentaram restaurar o mundo deslumbrante do "Cenáculo das segundas-feiras", mas as condições já não eram as mesmas. T.O. Bobe, Ioana Nicolaie, Sorin Ghergut e Marius Ianus leram poemas no grupo da Faculdade de Letras, poemas muito discrepantes em matéria de qualidade. Este último, junto com o poeta da Bessarábia, Dumitru Crudu, aspirou agitar as águas deprimidas da poesia jovem a partir da corrente poética conhecida como "fracturismo", a que se somaram outros poetas e narradores. A corrente, que não teve uma vida muito longeva, era violentamente anti-intelectual, cultivava uma poesia social, brutal, influenciada pelos grupos de rap como B.U.G., A mafia ou Os Parasitas. Paradoxalmente, apesar de sua extrema violência, sua mensagem não ganhou muitos adeptos.

A corrente prosaica, despojada de ornamentos, sincera e autêntica, iniciada na poesia romena pela geração oitocentista, segue vigente hoje em dia na poesia dos mais jovens. Dan Sociu é, provavelmente, o adepto mais conhecido (e mais qualificado) desse tipo de poesia. Os detalhes da vida cotidiana reivindicam em sua poesia a aura de um milagre. Uma poesia sobre a sordidez existencial de teor social é a de Elena Vladareanu. Outros jovens poetas igualmente notáveis (agrupados pela crítica, contra sua vontade, em uma geração denominada de "a dos dosmilistas") cultivam um tipo de poesia completamente distinta, neo-existencialista, próxima ao profetismo e ao trágico grotesco de Ion Muresan ou Ioan Es. Pop, com traços associados entre nós à poesia transilvana que nasce da obra de Lucian Blaga. Os últimos livros de poemas de Teodor Duna, Claudiu Komartin ou Dan Coman refugiaram-se em uma lírica obsessiva, às vezes mórbida, atravessada por correntes de loucura. Em resumo, a poesia romena está, graças à última geração, em boas mãos.

Nada parece mais ausente da vida dos romenos que a poesia. Se alguém na rua lhes pedir para que mencionem o nome de um poeta romeno vivo, provavelmente nove de cada dez não conheça nenhum. Ao mesmo tempo, no entanto, não há nada mais presente que a poesia. Um número sem fim de jovens publicam poemas em seus blogs, o povo sorri com os anúncios engenhosos de muitos produtos, com os desenhos animados de Mini Max, com os jogos mágicos de computador que às vezes destilam poesia. A poesia não é unicamente o texto que não chega até o final da margem direita da página. Está, de fato, em todas as partes, no DNA de nossas células e nas fórmulas matemáticas, nas mulheres bonitas e nos homens bonitos, na forma das nuvens de verão, mas também no cadáver putrefato descrito por Baudelaire, na ruína e na destruição. Ser poeta na Romênia, e em outras partes, significa ser capaz de ver a beleza ali onde ninguém mais vê: no gato morto da parábola zen, no mais presente/ausente, o mais humilde/sublime e mais doce/perigoso objeto do mundo.

¹ Poeta falecido em julho de 2011.

Continua...                                                                       

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

II - "...ESCU"¹