II - "...ESCU"¹

 

Antes, adivinha: sou homem ou mulher? Isto te obrigará a ler de novo meu nome, que passaste por alto, talvez, como se fosse um bloco compacto de caracteres tipográficos. Mas nem sequer isso podes averiguar com meu nome. Meu nome termina em "a", mas não é feminino, senão que, como Volodea, Vanea, etc., é um nome masculino de origem eslava. E, no entanto, não sou eslavo. Devido a este nome enganoso, tenho recebido em muitas ocasiões cartas do estrangeiro em que o remetente se dirige a mim com Ms., Mrs. e, inclusive, Miss... Aqui se originam já meus primeiros — por enquanto, somente divertidos — problemas de identidade...

Veja agora meu sobrenome. Meu Deus, que sobrenome é este? It sounds like stones in a can (soa como o barulho de uma pedra em uma lata), como diz o limerick². Durante a Feira do Livro de Frankfurt, nos cilindros de neon do Centro Internacional, debaixo da minha foto escreveram Starcarescu. Era o único nome mal escrito e, no entanto, ninguém mais deu conta do erro. Pois, ao fim e ao cabo, qual é a diferença? Talvez, inclusive, soe melhor assim. Os signos diacríticos sobre os dois "a" fazem que seja impossível pronunciá-lo corretamente. Nem mesmo eu o pronuncio corretamente quando me apresento a um estrangeiro.

O final do sobrenome, no entanto, nos diz algo. Sou um -escu. Para alguns iniciados em onomástica, fica agora evidente que sou um romeno. Mais ou menos uns três quartos dos sobrenomes romenos acabam em -escu. Se eu fosse dentista, advogado ou engenheiro, não me importaria tanto. Mas sou escritor, logo, sou uma pessoa que luta por fazer-me um nome. Como se vai fazer um nome quando todos os escritores que te rodeiam são um -escu? Quem poderia me diferenciar de Mihai Cochinescu, de Matei Calinescu, de Mircea Dinescu? E se em meu país o ouvido já está acostumado a estes sobrenomes e os distingue com mais facilidade, que farás, tu, querido alemão amante de literatura, quando na Feira do Livro de Leipzig escutes a vinte escritores romenos lendo e analisando questões culturais e todos eles sejam -escu? Que sobrenome conseguirás reter na memória? Os livros de quem buscarás depois? Posso dizer-te coisas extraordinárias e desaparecer depois no mais completo anonimato. Na Alemanha isto não é tão grave, mas em francês, o final deste sobrenome soa tão mal que é alterado para -esco. Eugène Ionesco, por exemplo.

Meus problemas de identidade não terminam por aqui, poderia dizer até mesmo que aqui começam de verdade. Inclusive, ainda que não conheças minha nacionalidade, não creio que comprarás um livro escrito por um desconhecido com um sobrenome tão pouco familiar. E, se sabes que sou romeno, teu apetite diminuirá, provavelmente, até zero. E não penses que vinculo este assunto, de maneira vulgarmente sociológica, ao estado atual de meu país, com sua imagem aos olhos do Ocidente, como diz um estúpido clichê de ampla circulação pelos meios políticos. Se dizia, em outros tempos, que Maxim Gorki era um escritor porque tinha por trás dele as divisões de tanques soviéticos. Eu me nego a pensar que Günter Grass seja um grande escritor por ter atrás de si uma economia poderosa. Creio que o fato de um escritor romeno de mesmo valor que Günter Grass vai ser sempre cem vezes menos  conhecido no mundo que este não por culpa de uma percepção socio-política, mas sim, por uma questão de natureza cultural.

Não é fácil ser um escritor romeno. Há um duplo mal entendido relativo à percepção da cultura romena no exterior. Antes de me referir a ele, devo dizer que existe um mal entendido na própria ideia de escritor nacional. Ainda que uma espécie de orgulho popular, benigno, faça simpática a disputa esportiva entre países, resulta, de outra forma, incompreensível porque Gabriel García Márquez deva trazer estampado em sua camisa "Colombia", Pynchon, "USA" ou Calvino, "Itália". Minha escrita tem recebido tanto a influência de Kafka, como a de Ion Barbu, a de Sábato, como a de M.H. Simionescu, a de T.S. Eliot, como a de M. Ivanescu. Minha arte não procede de um tradição puramente romena, mas sim, da grande tradição europeia. Em minha camiseta não ponho "Romênia", ponho Castalia³, da mesma forma que Goethe. Ademais, não creio no espírito dos povos, nem em fraturas insuperáveis. Não acredito que os japoneses sejam impenetráveis à nossa inteligência. Não acredito que os aztecas foram uma espécie de aliens. Do mesmo modo que todos somos iguais no liberalismo e no terror, no amor e na objeção, assim são iguais também todos os escritores à luz da inteligência, da sensibilidade, da humanidade, da crueldade, da perversidade de sua escrita.

Em que consiste esse duplo mal entendido cujos principais culpados não são os ignorantes ocidentais, como defende às vezes nossa imprensa, senão, sobretudo, os próprios romenos? Em primeiro lugar, na imagem da cultura romena, contemplada como uma cultura tradicional, folclórica, rural, com um grande poeta nacional intraduzível, com uns tantos narradores do mundo do campo que, no máximo, estilizam com espírito moderno os costumes locais. Não somente não creio que seja assim, penso ainda que a própria ideia de que exista em nosso século uma cultura semelhante me parece ridícula. Uma delicada corrente literária promovia, é certo, na Romênia do início do século XX, essa imagem. Mas não teve nada que objetar à onda de modernismo que, a partir dos anos 1920, se converteu na única linguagem que compreendem os meios culturais de meu país. O modernismo propriamente dito, junto com as vanguardas e o surrealismo, constituem noventa por cento da literatura que se escreveu ao longo do século XX na Romênia. Proust foi adulado, Papini endeusado, Joyce cultuado e rebatido com paixão, Faulkner foi imitado até o excesso. Tivemos um Kafka romeno (M. Blecher), uma Virgínia Woolf romena (Hortensia Papadat-Bengescu) e um Gide romeno (Camil Petrescu). Temos também autores que não têm equivalente na literatura mundial, como o grande poeta Arghezi. Não tenho nenhuma classe de complexo a este respeito e tampouco nenhuma classe de soberba. A literatura romena é uma literatura europeia normal, com autores hiperconscientes de sua atividade artística, muito técnicos, complexos e, no entanto, fáceis de compreender e de amar. Nada tão exóticos que não possa ser entendidos, mas com algo perturbador e nostálgico, procedente, no entanto, da língua romena, esse português do Oriente...

Por que os grandes livros da modernidade romena não são conhecidos no mundo? A explicação é longa e entediante. Basta por agora, assinalar que não se trata de falta de qualidade, mas da nefasta gestão cultural. Os romenos respondem, muitas vezes, a essa situação com uma grotesca reação de frustração. Tenho-os visto, em inumeráveis ocasiões, folheando as enciclopédias estrangeiras em busca dos nomes d"os grandes romenos" e tremendo de fúria e humilhação ao constatar que nem sequer Eminescu —Goethe e Schiller da Romênia em um só poeta— figura entre eles. Em vão lhes explicava que maravilhosa poderia ser esta oportunidade: um filão intacto, escondido, em que raras flores de quartzo esperam pacientes, não acariciadas ainda pela luz...

Suponho—pelo prazer de jogar— que estejas disposto a crer na modernidade natural desta cultura. Posso, portanto, ir mais longe e falar-te sobre o segundo grande mal entendido, mais delicado que o primeiro, e que deve ser desativado com muito cuidado. Se trata da situação da cultura de um país "do Leste" sob o regime comunista. E, além disso, de que tipo de indivíduo é o indivíduo (e, implicitamente, o tipo de autor) "do Leste". Aqui se acumularam inúmeros clichês. Talvez não exista algo mais nocivo que aquele que fala de uma diferença essencial entre Europa Oriental e Ocidental, de dois tipos de indivíduos modelados por experiências históricas absolutamente distintas. Muitos romenos acreditam nessa diferença. Esses começaram culpando-se pelo desastre moral do comunismo (todos somos culpados, se ouvia muito comumente nos primeiros anos após a queda do antigo regime) e, por inventar a figura de um presumido indivíduo do Leste, uma espécie de Deus da liberdade, da democracia e da civilização. No entanto, a medida que as frustrações econômicas, sociais e culturais foram aumentando, na mente desses indivíduos se produziu uma reação paradoxal, dostoievskiana. O sentimento de culpa se transformou em uma espécie de soberba compensatória. Os valores se inverteram bruscamente: vocês, os ocidentais, ganham dinheiro, vivem comodamente, têm tudo o que querem, mas isso os faz dóceis e indiferentes. Nós, em contrário, temos sofrido. Nós temos enfrentado a fera comunista, nós sabemos como é a vida sob o terror, nós somos agora os depositários da modernidade e, inclusive, da fé verdadeira. Vejam nossos corpos deformados, nossos dentes estragados, escutem o tremor de nossa voz. Nós temos traumas, nós temos sobre o que escrever e sobre o que falar. O que temos vivido tem sido a verdade e, em certo sentido, a auréola de nossos rostos enfermos. Somos melhores que vocês. Façam o que façam, não podem entender-nos, pois nossas experiências vitais são diferentes... Utilizando um jogo de palavras (que pertence a uma personalidade literária muito respeitada do exílio romeno), enquanto a literatura ocidental havia sido, no pós-guerra, estética, a do Oriente comunista havia sido est-ética... A imoralidade geral assumida de início se transforma, como por mágica, em um padrão moral...

Vemos aqui como a cortina de ferro da cultura europeia é reconstituída com tenacidade por ambas as partes, graças à indiferença de uns e o patetismo dos outros. Não ponho em dúvida os sofrimentos, absolutamente reais, de meu povo nos cinquenta anos de ditadura, sofrimentos que, por desgraç, se prolongam também hoje em dia. Eu mesmo os vivi e vivo, como qualquer um de meus concidadãos. Mas não acredito em um homem do Leste essencialmente distinto do homem do Oeste, melhor ou pior que este, nem também em uma literatura que seja outra coisa que estética. Não acredito que nós estejamos deformados pela propaganda e vocês pela publicidade. Não creio que tu sejas mais disciplinado que eu por ser protestante, assim como também não acredito que eu, ortodoxo, tenha uma conexão com Deus mais íntima que tu. Passe o que se passar, por muito atormentada, injusta ou néscia que possa ser a história, não creio que devamos contribuir para construir diferenças entre os homens nem exagerá-las ali onde existam.

Não, o homem do Leste, na medida em que é educado, tolerante, liberal, é igual ao homem do Oeste (na medida em que...), indiferentemente das experiências que esses tenham vivido. Não há nenhum muro natural entre eles. Quando viajei ao Ocidente pela primeira vez, constatei que não tinha nenhuma dificuldade para conversar com seus habitantes. Comprovei que o Ocidente, tal qual havíamos construído em nossa imaginação, não existia! Existia somente gente simpática e menos simpática, compreensiva e menos compreensiva. Hoje em dia a Romênia se encontra derrotada ao cabo de uma guerra política e econômica, e seria estranho se não se parecesse com a Alemanha quando esta perdeu sua última guerra. Mas a humanidade do ser humano é eterna, não despareceu em 1945 e não vai desaparecer em 1998. Não foram a fome e a miséria a verdadeira imagem da Alemanha durante os anos da reconstrução, mas Heinrich Böll e seus semelhantes. A verdadeira imagem da Romênia de hoje não vais encontrar nos delinquentes, nas crianças de rua nem em cachorros abandonados (tão reais todos!), mas nos escritores que vão falar na Feira do Livro de Leipzig. Eu sou a imagem da Romênia de hoje.

Sobre a cultura romena sob o comunismo, basta dizer que Jenny, minha colega de faculdade vinda da RDA, ouviu falar de Rainer Maria Rilke pela primeira vez na Universidade de Bucareste, onde descobriu também que Mario e o Mago, de Thomas Mann, é algo completamente distinto a uma parábola antifascista, como lhe haviam dito em seu país. A educação e a cultura romenas conseguiram, sobretudo depois de 1970, resistir passivamente ao comunismo com uma eficiência que resultou ser superior à resistência ativa dos dissidentes de outras partes. Não tivemos demasiado dissidentes, mas tivemos edições de Robbe-Grillet em romeno ao mesmo tempo em que era publicado na Inglaterra ou na Alemanha, tive Gérard Genette e George Steiner, em romeno, sobre minha mesa enquanto escrevia minha tese de Licenciatura. Tivemos quase todas as novelas de Borges, Cortázar, Bruno Schultz, Grass e Updike em versão romena, da mesma forma que todos os clássicos universais. Só uma décima parte dos poetas romenos escreveram poesia por encargo do regime. Ademais, a poesia foi tão livre esteticamente como no Ocidente, apesar da censura. O surrealismo, a neo-vanguarda, o pós-modernismo..., nenhuma das experiências naturais do "mundo civilizado" foi diferente entre nós. A melhor prosa romena das últimas décadas experimentou a profunda influência dos pós-modernos americanos: Barth, Pynchon, Coover. Nos anos mais duros da ditadura de Ceausescu, os círculos literários estudantis produziam uma extraordinária literatura underground, livre de qualquer restrição. Ainda que houvesse vivido na Alemanha ou nos Estados Unidos, não haveria escrito de forma diferente nenhuma das frases que escrevi antes de 1989. Meus projetos literários continuaram imperturbáveis depois da queda do comunismo. Desde meu ponto de vista, portanto, não são certas as belas declarações que se ouvem com frequência da boca de alguns intelectuais de idade mais avançada: "O comunismo foi um deserto cultural", "Todos somos culpados", "Somos, ainda, portadores dos germens do comunismo", etc. Talvez tenham-nas criado sinceramente. Mas, minha geração nasceu livre e sua linguagem foi, desde o começo, uma linguagem do Ocidente. Precisamente esta linguagem (que compartilham também muitos dos autores de mais idade) é, hoje em dia, nosso mais valioso bem comum; o teu, querido leitor destas linhas, e o meu. Não são as diferenças, mas sim as semelhanças entre nós o que me parece importante. Quando estivermos de acordo acerca delas, teremos também tempo de falar das diferenças.

Volto ao meu sobrenome. "What's a name?" Como vês, não há muitas coisas em um sobrenome. E, inclusive agora, depois de tantas frases, minha identidade, a do enigmático Mircea Cartarescu —homem/mulher, latino/eslavo, oriental/ocidental—, talvez só lhe pareça vagamente familiar. Abre, no entanto, meu livro de capa alaranjada, apesar do sobrenome que está sobre ele: somente então meu nome se abrirá e começara a significar, talvez, algo para ti (como o nome de um recém-nascido, como o nome científico que recebe pela primeira vez uma mariposa recém-descoberta).

E pode ser que, da mesma forma que o nome de um automóvel favorito, do processador de textos de teu computador, do jornal que lês todos os dia, este insólito -escu, chegue a ser para ti, algum dia, uma garantia de qualidade: a garantia de uma literatura honrada, de uma literatura verdadeira.


¹ Texto inicialmente publicado no Frankfurter Rundschau em 1997, na abertura da Feira do Livro de Leipzig, e depois, na versão romena de Lettre Internationale.

² limerick - pequeno poema de cinco versos, com ritmo anapéstico ou anfíbraco, que faz referência à cidade irlandesa de mesmo nome, onde teria se originado. O poeta brasileiro Joaquim Sousa Andrade (Sousândrade)[11] se deixou influenciar por essa forma poética em seu livro "O Guesa Errante". O autor utiliza o limerick citado para reforçar a estranheza do som de seu sobrenome.

³ fonte de Castália era a nascente de água junto a Delfos que, segundo algumas lendas da Antiga Grécia, emitia os vapores alucinógenos que provocavam ao oráculo de Delfos os sonhos e visões que lhe permitiam predizer o futuro. Segundo outras lendas, da fonte apenas jorravam águas puras e cristalinas. O autor afirma citar Castália da mesma forma que Goethe, o que parece ser uma filiação poética alternativa em contraposição ao conceito de nacionalidade, assim Cartarescu seria, enquanto poeta, muito mais proveniente de Castalia que da Romênia, seu país natal.

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